Existe um tipo de golpe por e-mail que não depende de erro de português, de anexo estranho ou de remetente com nome esquisito. Ele depende de algo que ninguém enxerga na tela: caracteres que o software processa normalmente, mas que fonte nenhuma desenha. Pesquisadores da Microsoft descreveram uma campanha de disparo em massa que usou justamente isso, o chamado bloco de tags do Unicode, a faixa que vai de U+E0000 a U+E007F, para cortar palavras ao meio sem que o destinatário percebesse qualquer diferença.
Para quem toca uma clínica, um escritório de contabilidade, uma indústria ou uma loja, a notícia importa por um motivo direto. O phishing invisível não começa no funcionário distraído; começa antes, na camada que deveria separar mensagem legítima de armadilha. Quando essa triagem automática erra, quem decide se o boleto vai ser pago é uma pessoa com pressa, no meio do expediente, olhando um texto que parece absolutamente normal.
Uma palavra partida ao meio por um caractere que não existe na tela
A técnica é conhecida no meio de segurança como ASCII smuggling e ganhou fama em outro contexto, o das tentativas de injetar comandos escondidos em sistemas de inteligência artificial. Desta vez, porém, o alvo não foi um modelo de linguagem. Os criminosos pegaram um caractere de espaço invisível, o U+E0020, e o enfiaram dentro de termos comuns em mensagens financeiras. A palavra funding, por exemplo, virava fun mais o caractere fantasma mais ding.
Para o olho humano, nada muda: a frase continua inteira e bem formada. Para o software, muda tudo. Boa parte dos filtros quebra o texto em pedacinhos, os chamados tokens, e compara esses pedaços com listas de termos suspeitos. Com o intruso invisível no meio, a palavra conhecida some do mapa e sobra um fragmento que nenhum classificador viu antes. O resultado é uma mensagem que passa despercebida por regras de correspondência literal e por modelos treinados em texto limpo.
O calendário do golpe é o mesmo do seu financeiro
Os números dão a dimensão. Segundo a Microsoft, os alertas para essa técnica saltaram de forma abrupta em 9 de fevereiro de 2026: de cerca de vinte e um mil mensagens registradas no dia anterior, o volume ultrapassou um milhão e trezentas mil no dia seguinte. A campanha seguiu ativa por perto de três meses, até meados de maio.
Mais revelador do que o pico é o ritmo. O disparo se concentrava nos dias úteis e praticamente sumia nos fins de semana. Ou seja, o golpe respeitava o horário comercial da vítima, batendo à porta quando o setor financeiro estava trabalhando e a caixa de entrada já vinha cheia. A maior parte das mensagens saiu de uma plataforma legítima de marketing, a ActiveCampaign, com remetentes apoiados em domínios descartáveis de aparência financeira, como guardiangrowthfunding[.]com e digitalcapitalboost[.]com. Questionada pela Microsoft, a ActiveCampaign respondeu que sua moderação avalia mensagens com caracteres invisíveis do mesmo jeito que avalia as demais.
Para a sua empresa, isso significa que o e-mail perigoso não chega mais com cara de e-mail perigoso. Ele chega em horário comercial, com assunto de proposta, crédito ou reembolso, disparado por uma ferramenta de marketing conhecida e com um domínio que parece de uma financeira qualquer. Nada nesse conjunto aciona o velho alarme mental de mensagem suspeita.
Nenhuma barreira sozinha dá conta
Há uma boa notícia dentro do relato, e ela ensina mais do que o susto. Mesmo com a ofuscação, a própria estrutura de filtragem da Microsoft barrou mais de 99% das mensagens. Não porque uma regra genial reconheceu o caractere escondido, mas porque várias checagens independentes trabalharam juntas: reputação de quem envia, análise dos endereços de destino dos links, autenticação do domínio remetente e leitura do texto dentro de imagens por OCR. Quando uma camada cega, a outra enxerga.
Filtro é peneira, não é muralha. O que segura uma empresa de pé é a soma das peneiras, mais o combinado de quem trabalha nela.
Essa é a lição que vale para qualquer empresa, do consultório de vinte pessoas à fábrica com três turnos. Segurança não é um produto que se compra e se esquece; é um conjunto de camadas que se sustentam. Um firewall corporativo bem configurado filtra o que entra e o que sai da rede. O monitoramento 24 horas percebe o comportamento fora do padrão, como um pico de acessos a um domínio recém-criado. E o backup com restauração testada existe justamente para o dia em que alguma camada falhar.
O que ajustar na tecnologia
As recomendações publicadas pela Microsoft são endereçadas a quem administra o correio eletrônico, mas dá para traduzir cada uma em uma pergunta que o dono da empresa pode fazer ao seu fornecedor de TI.
- Nosso serviço de e-mail normaliza o texto antes de aplicar as regras de spam, removendo ou convertendo os caracteres invisíveis que ninguém vê?
- A presença de caracteres do bloco de tags dispara algum sinal de anomalia por aqui, ou passa em branco?
- Conseguimos procurar no histórico o padrão descrito, com volume alto em dia útil e domínios financeiros criados há poucos dias?
Vale lembrar que o caractere escondido não é, sozinho, prova de crime, mas é um forte sinal de anomalia. Texto comercial honesto raramente precisa de um espaço que não aparece. Por isso, tratar essa presença como alerta e cruzá-la com a idade do domínio e a reputação do remetente costuma render mais do que caçar palavra por palavra.
Se a resposta vier vaga, não é frescura insistir. A técnica nasceu em pesquisa sobre segurança de inteligência artificial e migrou para um golpe de e-mail comum, o que mostra que a defesa precisa conversar entre áreas em vez de ficar trancada em uma ferramenta só.
O que muda na rotina de quem paga as contas
Nenhuma tecnologia substitui uma regra combinada. Se o e-mail conseguiu enganar a máquina e chegou parecendo verdadeiro, a última barreira é o procedimento interno. Vale escrever, em uma folha só, o que a sua equipe faz quando aparece um pedido de pagamento.
- Mudança de conta bancária de fornecedor nunca se confirma por e-mail; confirma-se por telefone, em número que já estava na sua agenda.
- Pagamento acima de um valor definido por você passa por duas pessoas, sempre.
- Segunda via de boleto que chega sozinha por e-mail é tratada como suspeita até prova em contrário.
- Todo mundo sabe para quem avisar quando achou estranho, e ninguém leva bronca por avisar à toa.
Essas quatro linhas custam uma reunião de meia hora e valem mais do que muita ferramenta cara. Elas não dependem de o filtro acertar; dependem de a sua empresa ter combinado o que fazer antes de o problema chegar. E, como segurança não é assunto de uma pessoa só, vale registrar a regra por escrito e revisitá-la sempre que entrar gente nova no time.
Fonte: CISO Advisor — Phishing criado por IA ilude filtros e camufla palavras, acesso em 7 de setembro de 2026.
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Perguntas frequentes
O que é phishing invisível?
É o golpe por e-mail que usa caracteres do bloco de tags do Unicode, que nenhuma fonte desenha na tela, para partir palavras ao meio. A pessoa lê a frase inteira e normal, enquanto o filtro enxerga fragmentos que não batem com as listas de termos suspeitos.
O filtro de e-mail que já tenho não resolve isso sozinho?
Sozinho, dificilmente. A Microsoft relata que barrou mais de 99% dessas mensagens porque combina várias checagens: reputação de quem envia, análise de links, autenticação de domínio e leitura de texto em imagens. É a soma das camadas que segura, não uma regra isolada.
Como descobrir se a minha empresa recebeu mensagens desse tipo?
Peça a quem administra o seu correio eletrônico para procurar o padrão descrito pela pesquisa: presença de caracteres invisíveis do bloco de tags, volume alto em dias úteis com queda no fim de semana e domínios de tema financeiro criados há pouco tempo.
E se alguém do financeiro já tiver pagado um boleto falso?
Acione o banco imediatamente, guarde a mensagem original sem apagar, registre a ocorrência e avise a equipe para que ninguém repita o pagamento. Depois, revise o procedimento interno de confirmação de dados bancários e as camadas de proteção do e-mail e da rede.
