Você mandou o boleto para o cliente. Ele jurou que não recebeu. Você abriu a pasta de enviados, viu a mensagem lá, reencaminhou — e nada. Três dias depois o cliente acha tudo no lixo eletrônico, junto com a proposta da semana passada.
E na mesma caixa de entrada, limpinha, chegou uma mensagem avisando que os dados bancários da sua empresa mudaram. Essa passou.
Não é azar e não é perseguição. Quando o seu e-mail cai no spam do cliente e o do golpista não cai, o que está acontecendo é que o servidor do outro lado faz três perguntas antes de aceitar qualquer mensagem — e a maior parte das empresas brasileiras nunca soube que essas perguntas existem, muito menos se o próprio domínio sabe respondê-las.
O que o servidor do destinatário está de fato perguntando
Quando um e-mail seu chega ao servidor do cliente, ninguém lê o texto para decidir se aquilo é confiável. A decisão começa antes, com três verificações automáticas que levam milissegundos. Elas têm nomes feios, e é por isso que quase ninguém explica — mas o que cada uma pergunta é simples.
SPF: quem tem permissão de enviar em nome desta empresa?
O SPF é uma lista pública, publicada no registro do seu domínio, dizendo quais servidores podem mandar mensagem em nome dele. É o equivalente à portaria do prédio ter a relação de quem pode entrar dizendo que trabalha ali.
Se a sua empresa manda e-mail pelo provedor A, mas o sistema de emissão de nota manda pelo provedor B e a ferramenta de disparo de proposta manda pelo provedor C, os três precisam estar nessa lista. Quase sempre um deles não está — e é justamente esse que manda o documento importante.
DKIM: esta mensagem foi alterada no caminho?
O DKIM é uma assinatura digital que o servidor de saída carimba na mensagem. Do outro lado, o servidor confere a assinatura contra uma chave pública publicada no seu domínio. Se bate, duas coisas ficam provadas: a mensagem realmente saiu de quem diz que saiu, e ninguém mexeu nela pelo caminho.
É o lacre da encomenda. Não impede que alguém mande uma caixa; impede que alguém abra a sua e troque o conteúdo sem que isso apareça.
DMARC: e quando uma das duas falha, o que eu faço?
Aqui está a peça que quase ninguém configura, e é a que mais importa. O DMARC é a instrução que você deixa publicada dizendo ao servidor do destinatário o que fazer quando uma mensagem se diz sua e não passa nas verificações: ignorar o problema, mandar para o spam, ou recusar de vez.
Sem DMARC, cada provedor decide por conta própria — e na dúvida, decide contra você. Com DMARC, você também passa a receber relatórios de quem anda tentando enviar mensagem usando o seu nome. É a única forma de descobrir que alguém está falsificando o seu domínio antes de o cliente ligar perguntando de um boleto que você não emitiu.
Os três estão definidos em normas públicas e antigas: o DKIM é de 2011, o SPF de 2014 e o DMARC de 2015. Não é novidade e não é tendência. É o alicerce que ficou de fora quando a empresa contratou o e-mail e ninguém explicou.
Por que o golpe passa e o seu boleto não
A resposta incomoda: porque o golpista se dá ao trabalho.
Quem monta uma fraude por e-mail sabe exatamente como funciona esse sistema de verificação. Ele registra um domínio parecido com o da sua empresa, configura SPF, DKIM e DMARC direitinho nesse domínio novo, e manda a mensagem. Do ponto de vista técnico, aquela mensagem é impecável: assinada, autorizada, íntegra. O filtro não tem motivo para desconfiar.
A sua mensagem legítima, enviada por um sistema que não está na sua lista de autorizados e sem assinatura nenhuma, é tecnicamente mais suspeita que a do golpista. O filtro não sabe quem é honesto. Sabe quem se identificou.
Os cinco motivos mais comuns, na ordem em que aparecem
- Um sistema que manda e-mail por você não está autorizado. Emissor de nota fiscal, sistema de gestão, formulário do site, ferramenta de cobrança. Cada um que manda em seu nome precisa constar na autorização.
- Nunca existiu assinatura. Muitos domínios saem do ar de fábrica sem DKIM. Funciona — até o dia em que o destinatário aperta o critério.
- O endereço de saída tem histórico ruim. Se o seu servidor já foi usado para disparo em massa, ou se está numa faixa de endereços compartilhada com quem faz isso, você herda a fama.
- Ninguém acompanha o que os destinatários estão marcando. Quem envia em volume tem hoje um teto de reclamação a respeitar — as regras públicas do Gmail para remetentes em volume, em vigor desde fevereiro de 2024, exigem manter a taxa de spam abaixo de 0,30% e recomendam ficar abaixo de 0,10%. Passou disso, a entrega piora para todo mundo do mesmo domínio.
- Anexo, link encurtado e assunto em caixa alta. São os sinais mais óbvios, e ironicamente os menos determinantes. Mas somados a um domínio sem autenticação, empurram a mensagem para o outro lado da linha.
O que dá para conferir hoje, sem contratar ninguém
Três coisas, e nenhuma exige ser da área:
- Peça a alguém de fora que reencaminhe uma mensagem sua como anexo e procure, no cabeçalho, as palavras spf, dkim e dmarc. O que aparece ao lado delas é pass ou fail. Três pass é o alvo.
- Liste todos os sistemas que mandam e-mail em nome da empresa. Não é a lista que o TI acha que existe: é a lista de verdade, incluindo o financeiro, o comercial e aquele robô de aniversário que alguém contratou em 2022.
- Pergunte ao seu fornecedor de TI, com estas palavras: o nosso domínio tem DMARC publicado, e em que política? Se a resposta for uma pausa, você já sabe o tamanho do assunto.
Onde entra proteção na frente do servidor de e-mail
Autenticar o domínio resolve o lado de quem envia. Sobra o outro lado: o que chega.
A filtragem na frente do servidor de e-mail examina cada mensagem antes que ela toque a sua caixa — origem, reputação, anexo, link e as tentativas de imitar um remetente conhecido. É onde se barra a mensagem que se passa por diretor pedindo transferência, e é onde se segura o anexo que carrega o programa que criptografa os arquivos da rede.
Isso reduz risco. Não elimina, e quem promete eliminar está vendendo o que não existe. O que se ganha é tempo: menos mensagem perigosa chegando, e registro de quem tentou.
O ponto
Um e-mail que não chega custa a venda. Um e-mail falso que chega custa mais. Os dois problemas moram no mesmo lugar — na identidade do seu domínio, que é a única coisa que o servidor do outro lado consegue verificar.
Vale a pergunta honesta: você sabe dizer, agora, se o domínio da sua empresa tem as três verificações no lugar? Se a resposta for "acho que sim", a gente confere junto numa conversa de quinze minutos e você fica sabendo — mesmo que não contrate nada.
Leia também: o golpe das páginas falsas de reunião, que usa o mesmo princípio de imitar o que você reconhece, e por que o firewall é mais do que um bloqueador. Se quiser ver como fica a proteção de e-mail na prática, ela está descrita em proteção de e-mail empresarial.
Perguntas frequentes
Meu e-mail cai no spam de um cliente só. Isso é problema meu?
Pode ser dos dois lados. Se acontece com um destinatário apenas, comece pelo filtro dele: uma regra antiga, uma vez que alguém marcou como spam, ou uma lista de bloqueio interna. Se acontece com destinatários diferentes e de empresas diferentes, o problema é do seu domínio — e aí SPF, DKIM e DMARC são o primeiro lugar para olhar.
Configurar SPF, DKIM e DMARC resolve de vez?
Resolve a maior parte, mas não é interruptor. Autenticação faz a sua mensagem deixar de ser suspeita por origem. Continuam pesando a reputação do endereço de onde você envia, o conteúdo da mensagem e quantas pessoas marcaram os seus e-mails como spam no passado.
Se eu tenho DMARC, ninguém consegue mais falsificar o meu domínio?
Ninguém consegue mais falsificar o seu domínio de um jeito que passe na verificação, o que já elimina a maior parte das tentativas. Continua possível o golpista registrar um domínio parecido com o seu — trocando uma letra, acrescentando um hífen — e mandar dali. Por isso a autenticação reduz risco; não o elimina.
A minha empresa manda pouco e-mail. Isso vale para mim também?
Vale, e por um motivo que não é volume: quem falsifica um domínio prefere justamente o domínio que não se defende. Empresa pequena com domínio desprotegido é alvo mais fácil, não menos.
Fontes
- IETF · RFC 7489, "Domain-based Message Authentication, Reporting, and Conformance (DMARC)", março de 2015
- IETF · RFC 7208, "Sender Policy Framework (SPF) for Authorizing Use of Domains in Email", abril de 2014
- IETF · RFC 6376, "DomainKeys Identified Mail (DKIM) Signatures", setembro de 2011
- Google Workspace Admin Help · "Email sender guidelines" — exigências para remetentes em volume, em vigor desde 1º de fevereiro de 2024
