Existe um equipamento na sua empresa que quase ninguém da diretoria sabe nomear, mas que sustenta o trabalho de todo mundo que não está sentado no escritório. É ele que recebe a conexão do vendedor em viagem, do contador que fecha o mês de casa, da filial que consulta o sistema central. Enquanto funciona, ninguém lembra que existe. Quando abre uma brecha, o assunto sai da TI e vira pauta da diretoria no mesmo dia.
O centro nacional de segurança cibernética da Holanda acaba de publicar um aviso sobre duas falhas graves na VPN Check Point, usada por empresas do mundo inteiro para dar acesso remoto à rede interna. O órgão avalia que as tentativas de ataque devem aparecer em pouco tempo e pede que as correções sejam instaladas sem esperar. Este texto traduz o alerta para a linguagem de quem decide e mostra o que cabe fazer nos próximos dias.
O que o alerta holandês diz, em português claro
As duas vulnerabilidades receberam os códigos CVE-2026-85102 e CVE-2026-85103. O NCSC classificou como alta tanto a probabilidade de exploração quanto o impacto possível, e avisou que espera tentativas em breve. Até a publicação do aviso, não havia relato público de código pronto para explorar as falhas circulando na internet. Isso não é motivo para relaxar: é apenas a distância, sempre curta, entre a correção ficar disponível e alguém montar o ataque.
A primeira falha mora na conferência do certificado durante a negociação do túnel: a checagem é feita de forma inadequada e, com isso, um invasor a distância consegue executar código no Security Gateway. A segunda é um estouro de memória no componente que interpreta os certificados da VPN, o decodificador ASN.1, e permite execução remota de código tanto nos gateways quanto nos Security Management Servers, a máquina que guarda e distribui a política de segurança de toda a rede.
Em termos de estrago, o órgão holandês foi direto: quem conseguir explorar as falhas pode dominar o sistema por inteiro, enxergar e modificar dados sigilosos e derrubar a operação.
Por que isso é assunto de dono, não só de técnico
A VPN é a porta de serviço da empresa. Diferente do site institucional, ela não existe para receber estranhos: existe para deixar entrar quem já é de casa, com a rede inteira do outro lado. Um invasor que assume esse equipamento não precisa mais furar nada, porque ele entra pelo mesmo caminho que o seu time usa, com a mesma naturalidade.
Na prática, três coisas passam a estar em jogo ao mesmo tempo. A primeira é o sigilo: prontuário, contrato, folha de pagamento, projeto de cliente. A segunda é a continuidade: se o gateway cai ou é sequestrado, o acesso remoto acaba e, em muitas empresas, o gateway é também o firewall que protege a saída para a internet. A terceira é a responsabilidade: vazamento de dado pessoal tem consequência legal, e a pergunta que vem depois nunca é “qual era a CVE”, e sim “por que a correção não foi aplicada”.
Quais versões aparecem na lista
A Check Point publicou as correções no dia 9 de setembro, acompanhadas de dois boletins próprios, identificados como sk1000117 e sk1000118. As versões citadas como afetadas são:
- R81.20, R82 e R82.10;
- as linhas R81.10.x e R82.00.x;
- versões que já saíram do suporte do fabricante, de R80 até R80.40, além de R81 e R81.10.
A versão R82.20 não está entre as afetadas. Para R81.20, R82 e R82.10, as duas falhas são resolvidas pelo LivePatch Take 24. As correções também entraram em outras versões relacionadas pelo fabricante nos boletins.
Quem usa o Check Point Live Patch tem um detalhe importante a favor e outro contra. A favor: conforme publicação no fórum da comunidade do fabricante, as proteções disponíveis para as duas falhas passaram a ser entregues a esses clientes desde o dia 9, e devem valer mesmo sem reiniciar o servidor. Contra: esse recurso automático não existe para versões fora de R81.20, R82 e R82.10, e não cobre todas as configurações possíveis. Ou seja, ninguém deve supor que está protegido, é preciso conferir.
Se a sua empresa roda uma versão que já não recebe suporte, o assunto deixa de ser só aplicar um pacote e vira planejamento. Vale tratar como um projeto com data marcada e caminho de atualização confirmado junto ao fabricante.
O que fazer nos próximos dias
- Descubra o que você tem. Pergunte ao responsável pela TI qual é a versão exata do equipamento, quem administra e se o contrato de suporte está ativo. Sem essa resposta, nada mais anda.
- Aplique a correção. Marque a instalação do pacote indicado pelo fabricante ou confirme o LivePatch Take 24, conforme a sua versão.
- Confirme que a proteção pegou. Especialmente no Live Patch, verifique se a sua configuração está de fato coberta, em vez de confiar no automático.
- Feche o Site-to-Site. O NCSC recomenda que quem usa esse componente ajuste as regras da VPN para liberar apenas endereços IP confiáveis e conhecidos.
- Olhe os registros. Tentativas de conexão fora de hora, de países onde você não opera, ou repetidas contra o gateway merecem investigação. É o tipo de sinal que só aparece com monitoramento acompanhando o ambiente.
- Teste a volta. Se algo der errado, a diferença entre um susto e uma crise está em ter backup com restauração testada, não apenas cópia armazenada.
Atualizar sem parar a empresa
A objeção mais comum ao aplicar correção em equipamento de borda é legítima: ninguém quer derrubar o acesso remoto no meio do expediente. Por isso a atualização se planeja como qualquer intervenção séria, com janela combinada, aviso às áreas, plano de retorno caso algo não suba e alguém acompanhando as primeiras horas depois da mudança. No caso das correções que se aplicam sem reinício do servidor, a janela fica ainda mais curta.
O erro caro não é atualizar num dia ruim. É deixar o aviso parado na caixa de entrada até o dia em que a exploração deixa de ser previsão e vira ocorrência.
Fonte: BleepingComputer — Dutch NCSC: Critical Check Point VPN flaws exploitation is imminent, setembro de 2026.
A Ragnatela IOT Solutions cuida da infraestrutura de TI de empresas: firewall e VPN, projeto de rede, nuvem privada em data center Tier III, backup com restauração testada e NOC monitorando 24 horas. Se você não sabe qual versão o seu equipamento roda nem quem aplica a próxima correção, fale com a nossa equipe e vamos olhar o seu ambiente junto.
Perguntas frequentes
Como sei se a VPN da minha empresa está entre as versões afetadas?
Peça ao responsável pela TI a versão exata do equipamento Check Point. O alerta cita R81.20, R82, R82.10, as linhas R81.10.x e R82.00.x, além de versões que já saíram do suporte, de R80 até R80.40, R81 e R81.10. A versão R82.20 não aparece na lista de afetadas.
Preciso reiniciar o servidor para ficar protegido?
Nem sempre. Segundo publicação no fórum da comunidade do fabricante, quem usa o Check Point Live Patch recebeu as proteções disponíveis desde 9 de setembro, e elas devem valer mesmo sem reiniciar o servidor. Esse recurso, porém, não existe fora de R81.20, R82 e R82.10 e não cobre todas as configurações, então a verificação é obrigatória.
Ainda não há ataque conhecido. Posso deixar para a próxima manutenção?
Até a publicação do aviso não havia relato público de código de exploração circulando, mas o NCSC classificou como alta a chance de exploração e disse esperar tentativas em breve. O intervalo entre a correção sair e o ataque aparecer costuma ser curto, e a recomendação do órgão é aplicar as atualizações sem esperar.
Uso VPN entre a matriz e a filial. O que muda para mim?
Além de instalar a correção, o NCSC orienta quem utiliza o componente Site-to-Site a ajustar as regras da VPN para aceitar apenas endereços IP confiáveis e conhecidos. É uma medida simples de configuração que reduz a superfície exposta enquanto a atualização é planejada.
