O sintoma é sempre o mesmo, em loja, clínica, escritório ou galpão. Perto do balcão funciona. No fundo do salão, no estoque, no consultório dos fundos ou no depósito, cai — ou fica tão lento que a pessoa desiste e usa os dados do próprio celular.
A conclusão intuitiva é que falta potência. Compra-se um roteador mais caro, com mais antenas, e o resultado é praticamente idêntico. Então compra-se um repetidor, e às vezes fica pior. É aí que a maior parte do dinheiro é gasta à toa neste assunto.
O motivo é que potência quase nunca é o que falta.
O problema não é o alcance de ida. É o de volta
Esta é a explicação que muda a forma de olhar o problema, e ela é simples.
O roteador ou o ponto de acesso é um equipamento grande, ligado na tomada, com antenas boas e energia de sobra. O sinal que ele emite chega longe. Por isso o celular no fundo da loja continua mostrando duas ou três barrinhas: ele está ouvindo o roteador.
Só que a conversa tem dois lados. O celular é pequeno, movido a bateria e projetado para gastar o mínimo possível de energia. O sinal que ele devolve não tem a mesma força. E o lado fraco da conversa é sempre o aparelho da pessoa.
Daí o efeito que confunde todo mundo: a barrinha está cheia e nada carrega. O aparelho ouve e não é ouvido.
Aumentar a potência do roteador piora esse desequilíbrio em vez de corrigi-lo — o aparelho passa a ouvir de ainda mais longe, e continua sem conseguir responder de lá.
Por que repetidor costuma piorar
O repetidor tem um trabalho ingrato: ele precisa falar com o roteador e com o seu celular usando o mesmo rádio e, na maioria dos modelos domésticos, o mesmo canal.
Isso significa que cada pedaço de informação trafega duas vezes pelo mesmo espaço — uma do roteador até o repetidor, outra do repetidor até o aparelho. Na prática, a capacidade cai à metade e o atraso aumenta. Se houver dois repetidores em cascata, cai de novo.
Some a isso que ele repete tudo o que ouve, inclusive o ruído e as redes vizinhas, e você tem o pior resultado possível para quem administra: a barrinha na tela melhora e a experiência piora. Como a medida caseira que todo mundo usa é a barrinha, a impressão é de que resolveu — e a reclamação continua chegando, agora sem explicação aparente.
O que resolve de verdade
Mais pontos de acesso, com menos potência cada um, e cabo até eles.
É contraintuitivo e é o oposto do que a prateleira da loja sugere. A lógica: se o problema é o aparelho da pessoa não conseguir responder de longe, a solução é encurtar a distância — colocar um ponto de acesso mais perto de onde a pessoa está, em vez de gritar mais alto de onde ele já está.
Com menos potência em cada ponto, cada um cobre uma área menor e bem definida, e os aparelhos se distribuem entre eles em vez de se amontoarem num só. Cobertura é um problema de quantidade e posição, não de força.
O cabo até cada ponto não é capricho. É ele que evita o efeito do repetidor: o ponto de acesso usa o rádio inteiro para conversar com as pessoas, porque o caminho até a rede vai pelo fio.
O que atrapalha e ninguém suspeita
Antes de comprar qualquer coisa, vale olhar o ambiente. A lista de vilões é sempre a mesma e raramente é considerada:
- Parede com estrutura metálica e paredes de concreto armado — metal reflete e bloqueia.
- Porta corta-fogo, que é de aço maciço e costuma separar justamente a área que não pega.
- Prateleira de metal do estoque, especialmente cheia. Corredor de estoque é um dos ambientes mais hostis que existem para rede sem fio.
- Espelho e vidro com película metálica, comuns em clínica e em loja de roupa.
- Caixa d'água, elevador e tubulação metálica.
- O forno de micro-ondas da copa, que trabalha na mesma faixa que uma das faixas da rede sem fio e atrapalha enquanto está ligado.
Vale ainda um item que não é físico: as redes dos vizinhos. Em galeria, shopping e prédio comercial, dezenas de redes disputam os mesmos poucos canais. Aumentar a potência aqui não é só inútil — é antissocial e piora a situação de todo mundo, inclusive a sua.
Três coisas que melhoram sem trocar equipamento
Nem tudo depende de compra. Antes de qualquer orçamento, estes três ajustes costumam render mais do que aparentam:
- Tirar o ponto de acesso de dentro do armário. É onde ele quase sempre está, escondido junto com o resto. Fechado em caixa de metal, com a porta encostada, ele perde boa parte do alcance antes de sair da sala. Lugar de ponto de acesso é no teto, no meio da área que ele atende.
- Reduzir a potência, não aumentar. Em ambiente com mais de um ponto, potência alta faz os aparelhos grudarem no primeiro que encontraram e não trocarem para o mais próximo quando a pessoa anda. É o motivo de a videochamada cair quando alguém caminha da sala para a recepção.
- Usar a faixa mais rápida onde ela alcança, e a mais lenta onde ela é necessária. A faixa mais moderna é mais rápida e atravessa menos parede; a antiga é mais lenta e vai mais longe. Configurar como se as duas fossem iguais desperdiça as duas.
Dá para saber onde vai faltar antes de comprar?
Dá, e é exatamente por isso que o levantamento vem antes da compra.
Com a planta do local e uma medição feita no próprio ambiente, é possível ver onde o sinal cai, onde há sobreposição desperdiçada e quantos pontos são necessários, e em que posição. O resultado é uma lista de material com quantidade e local — em vez de um chute caro.
Sem esse passo, comprar equipamento é apostar. E é uma aposta que costuma ser feita duas vezes: uma no roteador melhor, outra no repetidor.
Uma decisão que quase sempre se paga
Vale separar a rede de trabalho da rede de visitante. Não é frescura de segurança: é o que impede que o cliente esperando na recepção, assistindo vídeo no celular, dispute a mesma capacidade que a máquina do caixa está usando para autorizar uma venda.
São ajustes de configuração, sem custo de equipamento, e costumam melhorar a percepção do dia a dia mais do que qualquer compra.
Se o Wi-Fi da sua empresa tem uma área conhecida que não pega, a gente faz o levantamento e diz quantos pontos resolvem e onde. Sem custo, e antes de você comprar qualquer coisa.
Perguntas frequentes
Um roteador melhor não resolve?
Melhora um pouco perto dele e nada no fundo, porque o lado fraco continua sendo o aparelho da pessoa.
Preciso passar cabo até os pontos novos?
É o que sustenta o resultado. Ponto de acesso alimentado por cabo entrega banda estável; sem cabo, o gargalo apenas muda de lugar.
Dá para saber onde vai faltar antes de comprar?
Dá, e é exatamente o que o levantamento faz: mede a atenuação real do lugar e indica quantos pontos e onde.
